crise-dagua

João S. Furtado
14 fev 2015

Os exemplos de poupança de água aumentam, dia a dia, divulgados pela mídia – rádio, televisão, jornais e revistas populares, muitos deles simbolizados por mensagens clássicas que eram ouvidas, com frequência: “escovar os dentes com a torneira fechada”, “ensaboar o corpo com o chuveiro fechado”, “banhos rápidos” e outros aplicados às atividade de lavar louça, pisos, roupas, etc.

Recolher a água do chuveiro com baldes, até a chegada da água quente, no longo trajeto entre o aquecedor instalado nas “zonas frias ou molhadas” das plantas construtivas “econômicas”; continuar colhendo a água do chuveiro, durante o banho, para uso posterior; usar redutores de pressão; diminuir a saída de água pelos furos dos chuveiros ou diminuir o tamanho das duchas, muitas delas simulando verdadeiras cascatas e cachoeiras; adotar critérios responsáveis para utilização de lavadoras automáticas e usar produtos que requerem menos enxague; reaproveitar água de chuva. As sugestões são inúmeras.

Muitos já corrigiram a perversidade de tecnologias ultrapassada, de alto impacto danoso, como as válvulas de parede, nas descargas sanitárias; as torneiras ineficientes. Ou adotaram estratégias como colocar garrafas com areia nas caixas acopladas de vasos sanitários a fim de reduzir o espaço de acumulação de água desnecessária para os jatos higiênicos. Sem mencionar pequenos, porém, significativos gestos para menor consumo, conforme a natureza do material orgânico a ser enviado para a rede de esgotos.

Por que não registrar, também, ações que estão se tornando comuns, como substituição do uso de grandes lavadoras por “tanquinhos” e reaproveitamento da água em três ou quatro ciclos, por meio de “logística doméstica” de seleção dos tipo de roupa ou de sujidade; ou combinação de tanquinhos com centrifugação em lavadora e reuso das águas utilizadas, inclusive para regrar plantas?

Que dizer da eliminação de hábitos perdulários de lavar pisos externos com varrição e mangueira de água logo atrás ou à frente das vassouras! E as máquinas de pressão? Embora alguns afirmem que gastam menos do que o uso da mangueira tradicional, o consumo deveria ser, no mínimo, considerado, além de fazer mal para os olhos e coração, em tempos de crise e, quem sabe, da fartura que dificilmente retornará.

Enfim, são muitos os exemplos que, certamente, contribuem para a feitura de extenso “glossário” de como poupar água na própria casa e economizar dinheiro. Economizar para o orçamento público e para as pessoas, individualmente ou como família.

Nas residências individuais, a gestão da poupança é favorecida pelo bom senso, apesar dos insubordinados (que hoje passam a ser chamados de irresponsáveis).

O problema está nas habitações coletivas. Nos edifícios antigos, a solução é um desafio infernal, quando o projeto técnico do sistema hidráulico contém várias “prumadas” na mesma unidade, tornando inviável, física e economicamente, a tarifação individual.

A solução é melhorada nas construções mais recentes, com medições individualizadas, mas, apenas melhorada, por que a medição geral é por um único hidrômetro na entrada do edifício e leituras por rádio, às vezes na passagem do prestador de serviços pela rua! Mas, como garantir que os moradores serão poupadores, quando consideram que têm dinheiro para pagar o que consumirem ou que deixam o uso por conta de prestadores de serviços sem preparação ou educação para a poupança?

Não surpreende que – recentemente – foi dito que a crise de disponibilidade de água fez com que as residências individuais reduzissem o consumo e os condomínios aumentassem o uso! Vá entender o comportamento dos moradores.

O uso da água em condomínios já foi abordado e o texto está disponível na Biblioteca do site do TdTSus – Think&doTank Sustentabilidade | Instituto Jatobás, inclusive em relação ao uso da água do subsolo.

Agora é o momento ideal de serem testados dois conceitos fundamentais para a sustentabilidade: cooperação e compartilhamento, em três dimensões.

A ambiental – determinada pela falta de chuvas, de evaporação e subsequente precipitação para aumento dos reservatórios e abastecimento humano. Pensando-se, naturalmente, que, idealmente, o uso primário da água deverá ser para os humanos e não para geração de energia, e que o modo de uso na agricultura será revisto, … apesar das consequências negativas para os negócios, o que certamente irá atrair a ira de índios, caciques e morubixabas de muitas tribos.

A econômica – representada por gastos públicos para captação de água, novas tecnologias para tratamento dos chamados “volumes mortos” (que nome mais infeliz, sem graça e de mau gosto que os especialistas inventaram!), de recuperação de efluentes, especialmente de esgotos, de pias e lavatórios, até investimentos financeiros significativos, para remoção de sal da água do mar, em diferentes escalas e qualidade.

E a dimensão social – caracterizada por novos modos de decisões coletivas, para se sobrepor ao modelo de “quem pode mais, chora menos” ou do poder dos que têm mais dinheiro para pagar o preço. Principalmente por se tratar de problema imposto a todos e que não será resolvido a curto e a médio prazo. No final das contas, a falta de reciclagem da água no Planeta trará efeitos nacionais, subnacionais e locais.

Há exemplos de pactos sociais que deveriam servir de lição para se migrar da competição para compartilhamento, pulando-se, obviamente, a fase de cooperação por que essa será insuficiente! Embora haja pessoas temerosas ou que nem sequer acreditam em qualquer nível mínimo de bondade no DNA de muitos humanos.

A falta de água e a continuidade das restrições são questões globais e muitas agências internacionais e nacionais, no mundo, discutem a necessidade de tratar a água como bem de valor e estratégico para a humanidade – acima do dinheiro!

Porém, líderes empresários e governantes acham que água é uma comódite a ser tratada no mundo de negócios das empresas, esquecendo-se que esse jeito de ver os bens naturais difusos já deu no que deu na Bolívia e será fator de tragédias se água for negociada apenas ou prioritariamente como objeto nas bolsa de valores!

Água como bem coletivo é abordada em vários milhões de “achados” na Internet, praticamente em todos os países. São milhares de organizações governamentais e não governamentais que se propõem a discutir o assunto e que propõem ações para uso responsável, correto, etc., etc. da água, em todos os níveis organizacionais, nacionais, intergovernamentais, internacionais … e “um sem fim de aplicações”.

São necessários exemplos objetivos e de aprimoramento do enfoque socioambiental da água e da evolução de cooperação para compartilhamento.

Talvez o exemplo simples, localizado, em edifício de condomínio, anunciado por síndica praticamente anônima sirva de metáfora: os moradores decidiram coletar a água das lavadoras de roupa para ser recolhida e usada nas áreas comuns do edifício. Replicada em edifícios com medidores individualizados, significa que contribuiriam para o coletivo, proporcionalmente ao volume de água consumida e do que pagaram, nas respectivas unidades.

A metáfora serve para educar gestores iluminados, políticos populistas e descolados do pensamento coletivo e sistêmico. Pessoas que, nas discussões a respeito da divisão de águas de bacias hidrográficas, deveriam considerar a água como vetor de desenvolvimento, independente dos limites geográficos interestaduais, das arrecadações.

Desse modo, tais pessoas deveriam inserir o conceito de compartilhamento na gestão e uso de recursos naturais difusos ou de bem comum.

Vizinhos de apartamentos e governantes têm muito o que aprender, quando a palavra de ordem é mais do que cooperar, ou seja, compartilhar.

Documento da UNESCO publicado em 2012 contém subsídios interessantes para lidar com o problema da água, no contexto internacional. O Aquífero Guarani figura entre os Casos discutidos. Ver http://www.zaragoza.es/contenidos/medioambiente/onu/newsletter12/789-eng-ed4-res15.pdf

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publicado em 26/09/16 por

Think and do Tank Sustentabilidade

O que é Sustentabilidade?


Já reparou que cada um tem uma definição do que é Sustentabilidade? Sustentabilidade para mim é diferente de sustentabilidade para você, que é diferente de sustentabilidade para as empresas, que é diferente de sustentabilidade para os governos, e assim por diante. Mas será que todo mundo sabe realmente o que é Sustentabilidade?

A palavra pode parecer difícil, mas o conceito é fácil. Por isso, o Instituto Jatobás iniciou a campanha “O que é Sustentabilidade?”.

A campanha pretende mostrar que existem diversos meios e ferramentas para promover o desenvolvimento sustentável, mas as preocupações são sempre as mesmas: sobrevivência, qualidade de vida e garantia de um futuro para as próximas gerações.

Sustentabilidade na prática é de um jeito para cada um, mas Sustentabilidade para todos é garantir e equilibrar as condições ambientais, econômicas e sociais necessárias para que tudo possa evoluir para melhor, por tempo indeterminado, respeitando, assim, o direito das gerações futuras de alcançarem sua própria sustentabilidade;
dispor de meios para que as pessoas – individualmente ou em coletividade – possam viver com equidade, qualidade e justiça, sem esgotar ou danificar, irremediavelmente, os bens naturais;
criar condições para o funcionamento e a qualidade dos relacionamentos;
conceber os meios e instrumentos para que os sistemas – naturais ou inventadas pelos humanos – possam desempenhar suas atividades e criar valor para todas as partes interessadas, com ou sem o propósito de lucro.
Desenvolver ou evoluir para melhor não significa crescer ou expandir de qualquer maneira; e ser melhor não significa ter mais.

Sustentabilidade para todos requer o entendimento de que tudo o que existe na Terra – e no Universo como um todo – forma um grande sistema no qual o comportamento de qualquer um dos integrantes exerce influência sobre os outros. Por isso, é muito importante que os impactos maléficos – causados por ações humanas – sejam evitados, pois, as consequências acabam se voltando contra os próprios humanos.

Sustentabilidade para todos requer mudança no modo de pensar: de agora para o futuro; de aqui para o Planeta como um todo; de competição para cooperação e compartilhamento; do individual para o coletivo.

Compartilhem suas ideias e participem de nossa campanha. Juntos, podemos construir um caminho mais solidário e sustentável!
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