estocolmo

Por Juliana Cassano Cibim
09/06/15

A Primavera Silenciosa (1962)[1][2], clássico livro de Rachel Carson, informou sobre os impactos e os danos ambientais causados pela industrialização ao meio ambiente. Inspirou e instigou muitas pessoas a discutirem sobre o tema, despertando, assim, a consciência ambiental. Se não leu, leia! Foi esse o livro que inspirou Al Gore, o ex-vice-presidente dos EUA e criador do documentário “Uma verdade inconveniente” (para quem gosta de celebridades) e muitos outros (conhecidos e anônimos).

Há 43 anos, em Estocolmo, na Suécia, aconteceu a primeira Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o Meio Ambiente Humano (5 a 16 de junho de 1972).

Ouso dizer que essa conferência foi inspirada pela Primavera Silenciosa, pelos acidentes ambientais que aconteceram e pela necessidade de se criar critérios e princípios comuns que “oferecessem aos povos do mundo inspiração e orientação para preservar e melhorar o meio ambiente” (humano) (Declaração de Estocolmo, 1972[3]).

Na Conferência de Estocolmo, o homem era o foco central na relação com o ambiente, pois dele se apropriava para se desenvolver. O homem acreditava que ser obra e construtor do meio ambiente…

“O homem é ao mesmo tempo obra e construtor do meio ambiente que o cerca, o qual lhe dá sustento material e lhe oferece oportunidade para desenvolver-se intelectual, moral, social e espiritualmente. Em larga e tortuosa evolução da raça humana neste planeta chegou-se a uma etapa em que, graças à rápida aceleração da ciência e da tecnologia, o homem adquiriu o poder de transformar, de inúmeras maneiras e em uma escala sem precedentes, tudo que o cerca. Os dois aspectos do meio ambiente humano, o natural e o artificial, são essenciais para o bem-estar do homem e para o gozo dos direitos humanos fundamentais, inclusive o direito à vida mesma” (texto transcrito da Declaração de Estocolmo de 1972).

No mundo industrializado, mas ainda não globalizado, o homem percebeu que havia a necessidade de cuidar do planeta para “continuar descobrindo, inventando, criando e progredindo”, pois experimentava as consequências da degradação ambiental causada por ele mesmo…

Eu, eu, eu. A prepotência e a arrogância do ser humano escrita numa Declaração Internacional, a Declaração de Estocolmo. Mas isso não foi ruim, por incrível que pareça. A Declaração parece uma carta de aceitação e de boas intenções do homem para ele mesmo e versa sobre suas obrigações e responsabilidades para com o ambiente: deve fazer, deve adotar, deve orientar…

E enfatiza que todos devem participar num esforço comum para a defesa e o melhoramento do meio ambiente humano para as gerações presentes e futuras, ao “mesmo tempo em que se mantêm as metas fundamentais já estabelecidas, da paz e do desenvolvimento econômico e social em todo o mundo, e em conformidade com elas”. Há 43 anos já se propunha metas, planejamento, cooperação, ação integrada e conjunta, governos locais, regionais e nacionais, esforços comuns…

Muito bonita essa Declaração e quase não se fala sobre ela…

A Conferência de Estocolmo foi importante, porque além de trazer o debate sobre o meio ambiente para o âmbito das Nações Unidas, abriu os olhos do mundo para a questão ambiental, tornando pública essa agenda e trazendo para o cenário das negociações internacionais dois novos importantes atores. Essa Conferência permitiu que dois atores se destacassem[4]: os cientistas preocupados com o crescimento demográfico, com o aumento da poluição e com a aceleração do uso e do consumo dos recursos naturais e o grupo da sociedade civil denominado grupo ambientalista, com suas frases de efeito e suas campanhas para chamar a atenção da imprensa e do mundo para os problemas ambientais (que iam da necessidade de se criar um controle da poluição ao direito ao vegetarianismo).

Novos atores no cenário das relações internacionais e do direito internacional. Novos atores com papel relevante no processo de conscientização e ação. Um novo momento.

43 anos se passaram desde o primeiro Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho de 1972.

O assunto, a agenda, o tema, a situação, a questão, como queira, atinge sua maturidade como muitas pessoas na faixa dos quarenta anos… Nesse momento, vale olhar para o passado e ver o que aprendemos com ele. Vale olhar para o presente para ver o que está colocado e como estamos lidando… Vale olhar para o futuro e acreditar que há muito para ser feito, mas já caminhamos um bom pedaço. Estamos vivendo o processo. Estamos caminhando…

A Declaração de Estocolmo já nos contava que “para se chegar a esta meta (da defesa e o melhoramento do meio ambiente humano para as gerações presentes e futuras) será necessário que cidadãos e comunidades, empresas e instituições, em todos os planos, aceitem as responsabilidades que possuem e que todos eles participem equitativamente, nesse esforço comum”… Hoje estamos entendendo o que foi dito em 1972.

O caminho se faz ao caminhar… Mas “é preciso entusiasmo, mas, por outro lado, serenidade de ânimo, trabalho duro e sistemático”. Ânimo, coragem, seriedade e persistência, nos ensina a Declaração de Estocolmo. Feliz aniversário, cara amiga!

Juliana Cassano Cibim é Doutora e Mestre em Ciência Ambiental pelo PROCAM/IEE/USP. Formada em direito pela UNIMEP/Piracicaba. Professora de direito internacional público e ética e direitos humanos na Faculdade de Direito e de soluções de controvérsia e direito no curso de Relações Internacionais da Faculdade de Economia, ambas da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Coordenadora de Programas, Projetos e Parcerias do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS).

[1] Livro Primavera Silenciosa, Rachel Carson, Editora Gaia (2011), 328 páginas. Livro em português.
[2]Para ler sobre o livro Primavera Silenciosa: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/estante/livro-primavera-silenciosa-rachel-carson-ed-gaia-700826.shtml
[3] http://www.mma.gov.br/estruturas/agenda21/_arquivos/estocolmo.doc
[4] http://www.bbc.com/news/science-environment-18315205

Fonte: http://justificando.com/
http://justificando.com/author/juliana-cassano-cibim/

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publicado em 26/09/16 por

Think and do Tank Sustentabilidade

O que é Sustentabilidade?


Já reparou que cada um tem uma definição do que é Sustentabilidade? Sustentabilidade para mim é diferente de sustentabilidade para você, que é diferente de sustentabilidade para as empresas, que é diferente de sustentabilidade para os governos, e assim por diante. Mas será que todo mundo sabe realmente o que é Sustentabilidade?

A palavra pode parecer difícil, mas o conceito é fácil. Por isso, o Instituto Jatobás iniciou a campanha “O que é Sustentabilidade?”.

A campanha pretende mostrar que existem diversos meios e ferramentas para promover o desenvolvimento sustentável, mas as preocupações são sempre as mesmas: sobrevivência, qualidade de vida e garantia de um futuro para as próximas gerações.

Sustentabilidade na prática é de um jeito para cada um, mas Sustentabilidade para todos é garantir e equilibrar as condições ambientais, econômicas e sociais necessárias para que tudo possa evoluir para melhor, por tempo indeterminado, respeitando, assim, o direito das gerações futuras de alcançarem sua própria sustentabilidade;
dispor de meios para que as pessoas – individualmente ou em coletividade – possam viver com equidade, qualidade e justiça, sem esgotar ou danificar, irremediavelmente, os bens naturais;
criar condições para o funcionamento e a qualidade dos relacionamentos;
conceber os meios e instrumentos para que os sistemas – naturais ou inventadas pelos humanos – possam desempenhar suas atividades e criar valor para todas as partes interessadas, com ou sem o propósito de lucro.
Desenvolver ou evoluir para melhor não significa crescer ou expandir de qualquer maneira; e ser melhor não significa ter mais.

Sustentabilidade para todos requer o entendimento de que tudo o que existe na Terra – e no Universo como um todo – forma um grande sistema no qual o comportamento de qualquer um dos integrantes exerce influência sobre os outros. Por isso, é muito importante que os impactos maléficos – causados por ações humanas – sejam evitados, pois, as consequências acabam se voltando contra os próprios humanos.

Sustentabilidade para todos requer mudança no modo de pensar: de agora para o futuro; de aqui para o Planeta como um todo; de competição para cooperação e compartilhamento; do individual para o coletivo.

Compartilhem suas ideias e participem de nossa campanha. Juntos, podemos construir um caminho mais solidário e sustentável!
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