pegada-ecologica

Por João S. Furtado – jsfurtado2@gmail.com
17/03/2015

O mundo consome, hoje, cerca de 74 bilhões de toneladas (Gt giga toneladas) de materiais extraídos anualmente da Natureza e outros elevados valores de água, energia e espaço para atividades produtivas. Sem falar no impacto sobre os serviços ecológicos ou ecossistêmicos, também mencionados como serviços ambientais.

O cálculo da Pegada Ecológica (PE), em que pesem críticas e lacunas, demonstra quantos hectares bioprodutivos – denominados ha globais – são necessários para sustentar ou suportar cada habitante do Planeta, de determinado país ou de região geográfica subnacional.

A PE mundial – para 7,3 bilhões de habitantes – é ao redor de 2,9 ha globais. Em 2009, ocorreu redução de 2,1%, por conta da recessão, mas voltou a subir 4% em 2010 e 1,7% em 2011.

A PE do Brasil está ao redor do mesmo número, mas um brasileiro de alta renda, com viagens aéreas executivas, regulares pode chegar à PE do norte-americano, lá por 9 hectares globais.

A PE do chinês é baixa, 2,1 ha globais, não por que seja um cidadão consciente quanto à sustentabilidade, mas, por que a renda per capita é baixa, da ordem de 9,8 mil dólares. A PE de Hong Kong – que também é China – é 5,4 ha globais e a renda per capita 53 mil dólares.

O cálculo da PE também revela o número de ha globais da biocapacidade, isto é, de biorreposição de estoques naturais. Portanto, há países com superávit (poucos) e com déficit ecológico (consumo de recursos menos biocapacidade).

O Brasil é superavitário em 6 ha globais (PE 2,9 e Biocapacidade 9 ha globais), mas, a maior parte é deficitária. EUA PE 7,9 ha globais e biocapacidade 4,9; Japão 4,7 e 0,6, respectivamente; França 5 e 3; China 2,2 e 1. Os deficitários importam recursos naturais de outros que, em cascata, vão buscar os recursos em países superavitários, como Brasil, Canadá, Austrália, Argentina, por exemplo. Um País exportador de comódities e alimentos sem valor econômico agregado – como é o caso do Brasil – pensa que está “bem na foto” da sustentabilidade mundial. Na verdade, exporta, gratuitamente, recursos naturais e serviços ecológicos, já que os valores (definidos em Dólares) não entram no preço dos bens comercializados.

Agora, a organização Footprint Network – http://www.footprintnetwork.org/en/index.php/newsletter/w/nfa_2015_release2#new, que desenvolveu a metodologia da PE, anuncia que a China é o país que mais demanda recursos naturais do restante do mundo (é bom não se esquecer das importações em cascata e o papel do Brasil, no sistema!).

A PE da China aumentou 3,6% em 2010 e 5,6% em 2011. Portanto, aumentar o PIB Produto Interno Bruto (volume de dinheiro das transações monetárias na produção e consumo de bens e serviços) só acontece às custas de maior consumo de recursos naturais.

Levantamento no ano de 2011 revelou que a China consumiu 17 Gt de materiais, com a média (per capita) de 13 t por pessoa. Apenas para comparações, os EUA consumiram, respectivamente, 8,9 Gt e 29,5 t; Reino Unido, 1,4 Gt e 23,2 t; Brasil 2,1 Gt e 10,8 t. O alto consumo de recursos per capita significa alto consumo pessoal e industrial.
Os números para o Brasil mostram que os 202 milhões de habitantes e as indústrias brasileiras consomem muito menos do seus compartes norte-americanos e ingleses e que o sistema industrial brasileiro está longe do modelo de países de maior consumo material e agregação de valor.

Porém, um alerta. Não se trata de incentivar e fazer apologia para o aumento no consumo de recursos naturais para produzir mais – seja no Brasil ou em qualquer outro país. No conjunto, todos os Países usam mais recursos do que deveriam, com uma consequência impressionante: o Planeta não consegue repor mais do que 45-50% do que é extraído por ano, do jeito como o sistema mundial de produção e consumo funciona.

Todos precisam reduzir a extração e uso dos recursos. Precisam, também, aumentar a biocapacidade para que a Terra seja capaz de manter (sustentar) a população humana que deverá chegar ao limite da chamada “capacidade de carga” estimada em 16 bilhões de habitantes, no ano de 2100.

E a economia, como fica? A engrenagem irá travar? Como haverá geração de renda para os empregados? Só haverá patrões com renda própria? Vender para quem?

Aí a história é outra: é produzir e consumir bem, e o suficiente, e inventar novo modelo econômico, por que o atual, neoclássico, ambiental, neoliberal ou mesmo o “verde” e o “circular” não serão adequados, sequer para o ano de 2050.

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    • Guta Pires
    • 03/20/2015
    Responder

    Economia de estado estável?

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publicado em 26/09/16 por

Think and do Tank Sustentabilidade

O que é Sustentabilidade?


Já reparou que cada um tem uma definição do que é Sustentabilidade? Sustentabilidade para mim é diferente de sustentabilidade para você, que é diferente de sustentabilidade para as empresas, que é diferente de sustentabilidade para os governos, e assim por diante. Mas será que todo mundo sabe realmente o que é Sustentabilidade?

A palavra pode parecer difícil, mas o conceito é fácil. Por isso, o Instituto Jatobás iniciou a campanha “O que é Sustentabilidade?”.

A campanha pretende mostrar que existem diversos meios e ferramentas para promover o desenvolvimento sustentável, mas as preocupações são sempre as mesmas: sobrevivência, qualidade de vida e garantia de um futuro para as próximas gerações.

Sustentabilidade na prática é de um jeito para cada um, mas Sustentabilidade para todos é garantir e equilibrar as condições ambientais, econômicas e sociais necessárias para que tudo possa evoluir para melhor, por tempo indeterminado, respeitando, assim, o direito das gerações futuras de alcançarem sua própria sustentabilidade;
dispor de meios para que as pessoas – individualmente ou em coletividade – possam viver com equidade, qualidade e justiça, sem esgotar ou danificar, irremediavelmente, os bens naturais;
criar condições para o funcionamento e a qualidade dos relacionamentos;
conceber os meios e instrumentos para que os sistemas – naturais ou inventadas pelos humanos – possam desempenhar suas atividades e criar valor para todas as partes interessadas, com ou sem o propósito de lucro.
Desenvolver ou evoluir para melhor não significa crescer ou expandir de qualquer maneira; e ser melhor não significa ter mais.

Sustentabilidade para todos requer o entendimento de que tudo o que existe na Terra – e no Universo como um todo – forma um grande sistema no qual o comportamento de qualquer um dos integrantes exerce influência sobre os outros. Por isso, é muito importante que os impactos maléficos – causados por ações humanas – sejam evitados, pois, as consequências acabam se voltando contra os próprios humanos.

Sustentabilidade para todos requer mudança no modo de pensar: de agora para o futuro; de aqui para o Planeta como um todo; de competição para cooperação e compartilhamento; do individual para o coletivo.

Compartilhem suas ideias e participem de nossa campanha. Juntos, podemos construir um caminho mais solidário e sustentável!
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