agua_condominios

Hábitos de consumo e responsabilidade social permitem distinguir a prática de cidadania e o caso da água é um ótimo exemplo. Principalmente em condomínios.

A individualização do consumo gera redução de 25-40%, dizem tantos. E, pergunta-se, as pessoas com o hábito da torneira jorrando continuamente na preparação de alimentos, lavagem de utensílios? Que dizer dos chuveiros sem redutores de pressão? E da abundância das duchas com cerca de 30 centímetros de diâmetro ou da psicologia do prazer do banho sob cascata, como ilustra a capa de catálogo de fabricante? Que história é essa de controle de vazão e curto tempo para o banho?, questiona aquele para quem pagar o preço do uso da água não é problema.

O que dizer da água para lavar o piso da área comum e a calçada? Quanto isso custa para os moradores e para a Natureza?

Pare aí! Nós usamos água de poço, ou Usamos a água bombeada do subsolo que vai para a sarjeta!, dizem os síndicos, membros de conselho e administradoras, com apoio de pareceres jurídicos, ao justificar que receberam orientação, equivocada ou parcialmente corretas (consultas telefônicas ao SAC da Sabesp, número de protocolos de atendimento e tudo mais). Podem usar a água, sim, desde que autorizados por outorga concedida pelo DAEE e, mesmo assim, com Responsabilidade Social.

Como dizem os atendentes da Sabesp ao telefone, a empresa não legisla a respeito do uso de água subterrânea – no que está absolutamente certo. Mas, é afirmativo ao dizer que a água “do poço” pode ser usada para regar jardins e lavar pisos e calçadas. Perguntado quem legisla, pode ocorrer o risco da pessoa dizer que não sabe e, assim, o interessado recorrer à CETESB que, por sua vez, poderá confirmar o desconhecimento e encaminhar ao Escritório Regional, de onde poderão surgir referências a agências distintas, inclusive a verdadeira responsável, o DAEE.

Além da complexidade de entendimento do que significa água subterrânea como bem público ou privado, há imprecisão de informação e dificuldades para o leigo encontrar o destino correto, coisas que precisam ser corrigidas e aprimoradas. Felizmente, há o recurso do protocolo de atendimento, que pode ser usado em situações mais complicadas.

É importante destacar que as exigências do DAEE envolvem informações, análises e outros quesitos para pedido de outorga e a contratação de empresa qualificada.

Está no site. Só em 2012, foram autorizados mais de 25.000 poços artesianos no Estado de São Paulo. Supõe-se que harmonizados com políticas públicas de gestão da água como bem difuso, a ser protegido pela Constituição Federal, segundo a qual todos somos responsáveis pela proteção, como um bem ambiental. O Art. 225 – Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

Portanto, somos todos responsáveis como cidadãos; e outros cidadãos, um pouco mais, como síndicos, que respondem jurídica e administrativamente. E administradoras, que não relutam em incluir, em seus portfólios de oferta de serviços, as excelências na especialidade de condomínios, com o suporte que apoio jurídico, para o melhor entendimento de conformidades obrigatórias e outras, para boas práticas.

Parece haver síndicos, com aprovação de conselhos e suporte (ou omissão) de administradoras que vão em frente, em nome da economia, de superação de crises de falta de água, e de outras justificativas, ingênuas, espera-se. E usam a água do subsolo estocada em poços (legalmente, espera-se) – ou em reservatórios temporários, antes das bombas jogarem a água nas sarjetas.

Entende-se que a autorização de abertura de poços – nos rigores da conformidade técnica e legal – é inquestionável. Para isso, há mérito e relevância, especialmente em locais onde os serviços de abastecimento não chegam e sob tantas outras circunstâncias.

Edifícios de condomínios urbanos não podem ficar fora da oportunidade de poupança com uso de poços, nos limites da lei, da qualidade e da responsabilidade. Trata-se, nesse caso, de aderência a dois pontos importantes. Um, a política para evitar o uso perverso de água potável que requereu elevados custos de produção desde a origem ao ponto de consumo. O outro, a estratégia de poupança de água tratada, especialmente em respeito às pessoas sem as possibilidades econômicas e habitacionais do conforto nos condomínios. Mesmo que o poder público ofereça tarifas diferenciadas para populações com menor renda e capacidade de pagamento.

Lavar calçadas, com frequência e sem necessidade, é, em qualquer tempo e situação, conduta perdulária, pois, pode ser substituída por varrição ou lavagem localizada para remover sujidades inconvenientes, como as causadas por pessoas que não recolhem as fezes de seus animais de estimação, mas que não estimam o direito à água dos demais cidadãos.

Em tempos de reservatórios cheios, portanto, mais ou menos, tudo bem, desde que eliminados os riscos de saúde e os limites de extração de água, sob a responsabilidade de gestão de políticas públicas pelo DAEE, CETESB e Sabesp, cada qual em seu limite institucional e atribuições.

Mesmo assim, é preciso considerar que custos de produção de água na natureza estão cada vez mais altos; os estoques de água de qualidade cada vez menores e os rios de nuvem (a umidade que vêm da Amazônia e garante produção de água para agricultura e ambiente urbano na América Latina) com carga d’água cada vez menor, por conta dos desmatamentos e queimadas. Será que isso não interessa ao cidadão responsável?

A sociedade humana – governo e empresas, como os mais responsáveis – ignora o fato e não faz o cálculo de quanto custam, em dinheiro, os recursos da Natureza utilizados para produção natural de água. No caso da Sabesp, o consumidor final paga menos de 50% do preço dos recursos naturais usados para a água ser colocada na casa das pessoas.

Os resultados disso estão aí, como mostra o cálculo da Pegada Ecológica (quanto a Natureza produz de bens e quanto os humanos consomem por ano) e da Pegada Hídrica (quando a casa ou qualquer organização consomem de água por ano). Os recursos naturais, necessários para atender ao sistema de produção e consumo dos humanos, de janeiro a dezembro, acabam em setembro. Isso quer dizer que nos últimos 4 meses do ano os humanos estão consumindo não o rendimento ou renovação do Capital Natural, mas o capital propriamente dito.

Se isso acontece na empresa, o caminho é a falência. Na família, significa viver de juros da poupança até o oitavo mês e daí em diante gastar o Capital. Há necessidade de explicar mais?

Em tempos de crises, a responsabilidade social e a cidadania devem ser elevadas ao máximo. Desconhecimentos precisam ser superados. Arrogâncias abandonadas e competências demonstradas.

Aplausos aos síndicos e administradoras que acompanham, muitas vezes com planilhas diárias, as variações de consumo e percebem sinais de alerta para situações incomuns. E agem rapidamente e estão preparados para ações preventivas e curativas, com eficiência e zelo.

Parabéns aos gestores que disponibilizam, periodicamente, prestadores de serviços qualificados e validados para verificação, com autorização dos moradores, de vazamentos no interior das unidades, principalmente sob o olhar atento e colaborativo das pessoas que trabalham nos apartamentos.

Em tempos de crises, os caminhantes pelas calçadas notam os poucos edifícios onde gestores são desapegados da responsabilidade social e dão a impressão de serem habitantes de outro mundo.

São caminhantes que ficam com a percepção de esbanjamento e falta de respeito pelos esforços de outros. De práticas repetidas de gasto indevido de água – que seja com a desculpa de uso do lençol freático superficial. A pessoa que desconhece o fato ou que, mesmo depois de alertado, se recusa a admitir sua responsabilidade, é preciso saber que água de lençol freático é recurso difuso que não pode ser de propriedade pessoal. Seja por razões jurídicas, e sujeito a penalização financeira, quer seja por cidadania ética e compromisso com as gerações futuras, inclusive suas próprias famílias.

Resta o fato de que muitos edifícios dão melhores exemplos e a esperança na superação do desconhecimento, da ignorância e de mudança da maneira de viver em comunidade. Na pior das situações, que os filhos e os filhos dos filhos ajam de modo diferente dos pais desapegados dessa Responsabilidade.

João S. Furtado
jsfurtado2@gmail.com
Consultor em sustentabilidade organizacional

São Paulo, 02 de maio de 2014

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publicado em 26/09/16 por

Think and do Tank Sustentabilidade

O que é Sustentabilidade?


Já reparou que cada um tem uma definição do que é Sustentabilidade? Sustentabilidade para mim é diferente de sustentabilidade para você, que é diferente de sustentabilidade para as empresas, que é diferente de sustentabilidade para os governos, e assim por diante. Mas será que todo mundo sabe realmente o que é Sustentabilidade?

A palavra pode parecer difícil, mas o conceito é fácil. Por isso, o Instituto Jatobás iniciou a campanha “O que é Sustentabilidade?”.

A campanha pretende mostrar que existem diversos meios e ferramentas para promover o desenvolvimento sustentável, mas as preocupações são sempre as mesmas: sobrevivência, qualidade de vida e garantia de um futuro para as próximas gerações.

Sustentabilidade na prática é de um jeito para cada um, mas Sustentabilidade para todos é garantir e equilibrar as condições ambientais, econômicas e sociais necessárias para que tudo possa evoluir para melhor, por tempo indeterminado, respeitando, assim, o direito das gerações futuras de alcançarem sua própria sustentabilidade;
dispor de meios para que as pessoas – individualmente ou em coletividade – possam viver com equidade, qualidade e justiça, sem esgotar ou danificar, irremediavelmente, os bens naturais;
criar condições para o funcionamento e a qualidade dos relacionamentos;
conceber os meios e instrumentos para que os sistemas – naturais ou inventadas pelos humanos – possam desempenhar suas atividades e criar valor para todas as partes interessadas, com ou sem o propósito de lucro.
Desenvolver ou evoluir para melhor não significa crescer ou expandir de qualquer maneira; e ser melhor não significa ter mais.

Sustentabilidade para todos requer o entendimento de que tudo o que existe na Terra – e no Universo como um todo – forma um grande sistema no qual o comportamento de qualquer um dos integrantes exerce influência sobre os outros. Por isso, é muito importante que os impactos maléficos – causados por ações humanas – sejam evitados, pois, as consequências acabam se voltando contra os próprios humanos.

Sustentabilidade para todos requer mudança no modo de pensar: de agora para o futuro; de aqui para o Planeta como um todo; de competição para cooperação e compartilhamento; do individual para o coletivo.

Compartilhem suas ideias e participem de nossa campanha. Juntos, podemos construir um caminho mais solidário e sustentável!
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